segunda-feira, 26 de março de 2018

Argumentos infantis

Por Kleidianne Nogueira

Não que eu discorde de que mães corujas sejam fontes questionáveis para se obter informações sobre a capacidade intelectual das próprias crias, mas vocês tem que acreditar quando falo que a capacidade argumentativa da Luiza é fogo (pra não usar um palavrão). Confesso que, liderar crianças tão expontaneas tem sido um desafio surpreendente e enriquecedor.

Na primeira ocasião em que fui marcada pela argumentação persuasiva da minha filha, Luiza tinha apenas 2 anos e meio e estávamos a caminho da apresentação de Natal da creche numa noite quente de dezembro. Informada previamente pelas tias de que haveria venda de lanches no local e induzida a pedir que os pais comprassem, ela falou que queria bolo quando chegasse lá. Na época ela fazia dieta restritiva para leite e ovos, então minha resposta foi não. Ela simplesmente fechou os olhos, uniu as mãozinhas em frente do seu corpo e fez a seguinte oração:

- Papai do Céu, quero bolo. Em nome de Jesus, amém!

Quem duvida de que ela usou seus profundos conhecimentos sobre a minha personalidade para me influenciar com esta oração tão simples e tão específica? Se ela continuasse me pedindo o bolo, se chorasse, ou se dissesse que só um pedaço não iria fazer mal eu conseguiria facilmente rebatê-la. Mas orar? Pedir ao Papai do Céu em nome de Jesus? O que ela fez foi colocar em cheque tudo o que eu tentava incutir nela sobre fé e confiança em Deus. Se depois da oração, eu ainda negasse um mísero pedaço de bolo por medo de provocar alergia eu estaria demonstrando quão hipócrita era a minha ladainha sobre fé.

E como eu teimo em lhe oferecer uma educação com bases cristãs, Luiza vive usando as minhas expressões religiosas contra mim em sua argumentação. A que mais desestabilizou o bom andamento do sermão que eu pretendia realizar aconteceu num daqueles dias em que a criança está a todo vapor e a mãe só queria férias.

- Filha, por que você faz isso? Por que desobedece a mamãe e faz coisas erradas?

- Porque Deus me fez assim!

A resposta veio de um semblante tão inocente que eu esqueci completamente o que ia falar a seguir. Eu poderia ter desenvolvido o tema da criação, a queda do homem e o plano de Deus para a restauração do nosso caráter. Essas viagens teológicas que nós cristãos amamos repetir como se fossem ideias simples de serem entendidas. Mas eu só consegui rir desconcertada e abraçá-la oferecendo o meu perdão e a minha admiração.

Em outras ocasiões, a argumentação foge completamente do óbvio, embora enquadre-se no lógico. Como quando a convidei para uma caminhada num horário de pico do nosso já rude sol teresinense. A resposta dela foi que não poderia ir andando comigo pois o espírito santo dela morreria. Como discordar? Santa ou não, haviam chances reais daquela criança branquela desencarnar sob o céu ameaçador do B-R-O-BRO. Segui o meu caminho sozinha.

Deixando o campo religioso sem esgotá-lo, Luiza também aprecia argumentar em outras línguas (não as estranhas). Inglês principalmente. Yes, minha filha de 4 anos vive tentando me passar a perna em inglês. Geralmente, ela tira o foco dos próprios erros ao falar a nossa língua transformando-os em expressões da língua estrangeira.

- Mamãe, eu quero lembí a colher do mel.
- Tá bom, mas o correto é falar lamber.
- Pois eu quero lamber a colher do mel.
Depois de usar o mel eu esqueço do pedido dela e lavo a colher.
- Mamãe, eu disse que eu queria lembí!
- Desculpa, esqueci. E é lamber, você também esqueceu.
- Esqueci não é porque lembí é em inglês.

Será se terei muito trabalho pela frente pra conseguir argumentos à altura dessa pequena?

Cordel da Psicologia

Cordel escrito com muito carinho para a página da querida amiga e psicóloga, Jesanni Viana.

Por Kleidianne Nogueira

Em tempos de correria
De estresse e competição
Vem a psicologia
Segurar a nossa mão.

Ela não resolve tudo
Mas aponta um caminho
Com um psicólogo astuto
Reflito, organizo e luto
Bem melhor que andar sozinho.

Antes de seguir o cordel
Quero me apresentar
Não estou aqui ao léu
O que quero é te ajudar

Jesanni é o meu nome
Meu sobrenome é Psicologia
Humanista até o tutano
Acredito que o ser humano
Tem em sim tudo o que precisa

Meu papel é te guiar
Pela estrada para dentro
Se você se entregar
Mais eficaz é o tratamento

O terapeuta humanista
Vê o ser humano inteiro
É profundo analista
Persegue tudo que é pista
Mas sabe que toda conquista
Depende do próprio sujeito

Deixo aqui o meu recado
Para quem está a sofrer
Deixe-se ser ajudado
Não adie esse cuidado
Psicólogo é preparado
Pra cuidar bem de você.

A dama dos cadeados - Parte 4

Fonte: pexels


Por Kleidianne Nogueira

Não havia namorado virtual. Ela não sabia porque tinha inventado aquilo e também não entendia o porquê do estômago embrulhado se por tanto tempo ela desejou que aquela cena com o Saulo acontecesse.

  Íris decidiu não ir trabalhar e ligou para explicar que estava indisposta. Passou a manhã inteira sozinha com os próprios pensamentos e enfim entendeu suas reações adolescentes. No fundo ela sabia que com Saulo não seria apenas um namoro, afinal, ela já os considerava um tipo de namorados. Ela sabia que estava diante de um daqueles momentos únicos da vida em que a pessoa tem que tomar uma decisão cujas consequências irão acompanhá-la até os últimos dias. Voltou pra casa ainda indecisa com relação a Saulo, mas decidida quanto ao revestimento do sofá.

- Você vai voltar hoje pra estofaria, colega!

  À noite, Saulo encontrou a porta entreaberta e ao espiar pela brecha viu a sala vazia. Procurou indícios dos cadeados e não encontrou nenhum rastro. Empurrou a porta e começou a chamar pela amiga, que logo surgiu com um semblante que não lhe dava margem para desvendar o enigma iniciado naquela manhã. Os dois ficaram um instante em silêncio até que Íris pediu que ele entrasse e fechasse a porta. Ela entregou o próprio celular a Saulo.

- Pode procurar. Não há nenhum namorado. Foi um blefe adolescente.

- Não faz mais diferença. Você já sabe o que eu sinto e eu sei o que você sente. Resta saber o que decidimos fazer com esse sentimento.

- Nada.

Saulo permaneceu em silêncio.

- A gente não vai fazer nada com esse sentimento. Nós vamos continuar como antes: vivendo ele, dando um passo de cada vez...

- Fiquei confuso agora.

Os dois se aproximaram e as últimas palavras de Íris foram ditas quase sobre a pele de Saulo.

- Não tem confusão. Nós somos agora o que já éramos há meses. Faltam apenas alguns detalhes, alguns ajustes…

  E os lábios de Saulo silenciaram os de Íris por alguns instantes. Os dois sorriram com a boca, com os olhos, com a alma. Aparentemente não estavam mais perdidos em si mesmos, mas um no outro. Saulo foi o primeiro a devolver os pés ao chão e retomou o assunto relacionado a Íris que ele mais apreciava.

- Agora você precisa me explicar essas outras novidades. A dama dos cadeados está sem cadeados?

- Estava demorando!

- E aquele pobre sofá de veludo? Fugiu do destino cruel que o aguardava?

- Ai que engraçadinho!

- Sério. O que está acontecendo aqui?

- Cansei de viver com medo! Medo de alguém entrar no apartamento. Medo de manchar o sofá. Medo de namorar o melhor amigo…

  Saulo riu das novidades. Tentou de todas as formas fazer uma das piadas irritantes que ele costumava fazer mas não conseguiu. Contentou-se em perguntar novamente sobre o destino do sofá.

- Eu liguei pro rapaz da estofaria e ofereci o sofá por um precinho camarada pra ele vir buscar ainda hoje.

- E vai ficar sem sofá?

- Por um tempo.

- E onde eu vou sentar?

- Que tal no seu sofá?

- Ah, a gente já vai saltar do namoro pra morar junto? Já está pedindo pra eu trazer meus móveis?

- Lógico que não! Quem vai querer morar com um piadista inconveniente?

- Morar eu não sei, mas namorar você aceitou.

  Íris virou-se e foi se refugiar com o próprio constrangimento na cozinha.

- Deve haver uma forma de reverter essa burrice que cometi! – E sorriu faceira. – Deve sim!

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