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Mostrando postagens de Agosto, 2016

Ambos meus, embora não.

Por Kleidianne Nogueira

Ela nasceu drama, ele mistério. Ela o começo, ele o fim. Ela aprendizado, ele experiência. Ela guerreira, ele paz.

Ambos arrancados antes de desabrochar. Inundaram o mundo de inexplicável existência. Inexplicável para mim. 

Ambos meus, embora não. Ambos trabalho. Cansaço. Renúncia. Ambos amor voluntário. Entrega. Paixão.

Ambos meus, embora não.


Cirandar

Por Kleidianne Nogueira.

Nós somos quatro Eu com as quatro Eu com essa Eu com aquela Fui ficando Restam três
Nós somos dois Eu com ele Eu comigo Lamentando Restam quatro
Nós somos muitos Eu com tantos Laços fragéis Eu com elas E eu com isso?

O suicídio da lágrima

Por Kleidianne Nogueira

Não consigo esquecer aquela lágrima enganchada em seu olho. Ela estava encostada ao poste, cabeça reclinada e lágrima enganchada.
Olhava para o chão.
Como se não existisse outra opção. Como se estivesse sobre ele por acaso, por descuido, ou mesmo por castigo.
Fiquei olhando-a tempo suficiente para assistir ao suicídio daquela lágrima. Cansou-se de estar enganchada, saltou do canto do olho e partiu-se em milhares de pedacinhos imperceptíveis.
Morreu pensando ser o motivo da tristeza de quem a trazia enganchada. Morreu triste. Morreu sem saber que era ela quem impedia toda aquela tristeza de transbordar. 
E como não havia mais lágrima alguma enganchada, outras vieram, desordenadas, lançando-se ao desconhecido. 
Morrendo... 
Quase sem ter existido.

Estrada longa convida

Por Kleidianne Nogueira.

Vê no horizonte aquele tímido clarear? Pinta devagar o céu de vida e enche o chão de esperança. Não é paralelo à estrada; é toda ela. 

A alvorada é uma valsa antiga de cores e luz que descortina o que pousava adormecido no breu. É convite à persistência e eu não tenho intenção de recusá-lo hoje. 

Mas ouça! Não há som que não o da própria vida existindo. O leve passeio da brisa entre as plantas orvalhadas sequer sussurra. Move meus cabelos e enche minhas narinas de fragrâncias nostálgicas. De onde as conheço?

Ah, esse calor suave logo se tornará em brasa e todos estarão correndo do sol. Escondidos em caixotes  refrigerados ou abrigados em camadas agendadas de filtro solar. Sendo conduzidos para fora da longa estrada tão rapidamente  que julgam não ser destinatários do convite que ela faz diariamente.

Dormir é um poema de gratidão

Por Kleidianne Nogueira



Dormir também é um poema. Um louvor ao Criador. Poesia que regenera; descansa corpo e mente. Dormir é entregar-se à morte sem resistência. Perder completamente o controle. 

E há quem sonhe. Há quem viva enquanto dorme o que nunca sonhou desperto. Há quem chore, grite, fale... Há inércia, torpor.

Há também a insônia dos poetas, das almas sensíveis. Tão produtiva quanto um longo dia de trabalho árduo. Se dormir é poema, insônia é fome de viver o que o sol irá trazer.

Mas não podemos negar: dormir é um poema que escrevemos passivamente. 

Para as mães, tanto um poema, quanto um troféu. Para os ansiosos, os enfermos, os medrosos, os idosos cansados, enfim, para aqueles que alcançam o verdadeiro valor do sono, dormir é um poema de gratidão. 

Fechar os olhos e descansar é como dizer: "obrigada pela vida". Quando você dorme, prepara-se para enfrentar um novo dia. Isso é gratidão. Renovar as forças para abraçar mais vida.