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Mostrando postagens de Setembro, 2016

Um dia daqueles

Por Kleidianne Nogueira.

Hoje é um daqueles dias em que eu sairia quebrando todos os copos da casa, mas eu tive a brilhante ideia de substituir os copos de vidro por copos da Tupperware. Que espécie de monstro eu seria se lançasse aqueles copos tão bonitinhos contra a parede?

Mas a questão não é quebrar copos. A questão é estar em fúria. Eu que quero tanto a paz. Que a busco incessantemente. 

Então me dou conta de que aceitar a raiva dentro de mim não interrompe a paz que deveras vivo. A paz de ser quem realmente sou. 

Estou com raiva! É algo que preciso vivenciar. Circunstâncias alheias ao meu controle, plantaram em mim uma sementinha de ira que germinou. Agora preciso apenas cuidar para que não gere frutos de amargura e rancor colhidos pelos que me cercam.

Nunca fiz análise ou estudei a mente humana. Não sei se os especialistas recomendam tal atitude, mas é a minha escolha. Assim encaro uma emoção desconfortável. 

Aceitar a raiva. Viver a raiva. Controlar a raiva. 

Se eu simplesmente margi…

DorMente

Por Kleidianne Nogueira

Ela temia acordar. Imaginava o que encontraria e não queria enfrentar agora. Não queria enfrentar nunca.

Era assim que reagia sempre. Trancafiava seus pensamentos, suas dores e sofrimentos numa mala e viajava com aquele peso a tiracolo por fantasias irrealizáveis.

Conseguia ficar imersa em delírios por horas infindas. Não importavam as vozes, nem qualquer barulho.

Seu corpo não dormia, mas sua mente sim. Dormia e sonhava. Desenhava um mundo seu, onde as situações eram controladas a seu modo.

Mas sempre chegava a hora de acordar. Acordar e ser alguém que não queria ser. Acordar e querer voltar a mergulhar naquele espaço inventado onde nada despertava nela uma vontade quase irresistível de ser triste.

Bilhetes ao Inventor

Por Kleidianne Nogueira

Moço Inventor

Venho por meio deste bilhete, perguntar por quê o Senhor não criou um coração para a dor e outro para o amor. Se houver resposta, favor não colar o envelope, que um segredo assim deve ser revelado a tantos quantos quiserem espiar.

Agradecida
Moça Sofrida.


Moço Inventor,

Venho por meio deste, solicitar trancamento da matrícula da Vida. Preciso me organizar, formatar a cabeça, descobrir uma forma de bancar a mensalidade da existência. E como a Vida passa muito rápido, a carga horária está puxada e os assuntos muito difíceis, pensei que talvez fosse uma boa ideia trancar a matrícula. Se precisar, eu assino, pago taxas e afins. Só preciso dar um tempo...

Teresina, 10 de janeiro de 2011.

Papai do Céu

Por Kleidianne Nogeura

Há quanto tempo não o chamo assim?!
Tem espaço em seus braços para uma filha que retorna?

Papai, senti sua falta!
Queria dizer que minha vida seguia em paz e ainda assim eu quis voltar...
Mas estaria mentindo.

Paizinho, por que tendo a esquecê-lo quando tudo vai bem? Por que?

Posso me sentar um pouco? Não quero dormir agora.
Meus pensamentos são confusos, tenho tantas dúvidas a desfazer, tantas perguntas...

Mas não agora!

Neste instante só lhe peço abrigo, um abraço... atenção...

Depois sou toda ouvidos.
Em Sua voz, sei que encontrarei paz...

Companhia

Por Kleidianne Nogueira

Quando a inspiração bate à porta do quarto é melhor ter caneta e papel por perto ou a noite será longa.

Numa noite dessas ela veio, chegou devagar como se não fosse ficar. Até que armou uma rede sobre a minha cama.

Tirou meu sono e me fez escrever com tinta Branca em papel reciclado.

A inspiração é visita conhecida e folgada, que chega sem hora marcada e exige as mais incríveis regalias.

Paralelo

Por Kleidianne Nogueira

Rabisco palavras jogadas
Nas linhas que faltam à minha vida.
Pinto figuras rasgadas
Como se tivessem algum valor.
Entendo e finjo que explico
O que confunde a minha voz alienada
- ergo a bandeira da acomodação militante.
Pesquiso sem aprender
E esqueço para não lembrar
Que a memória já não é  mesma.
E assim, entre contradições,
Guardo lições que me dizem
Que o conflito alimenta o tempo que leva-me adiante.

Confusamente viva.
Complexamente explicada.

Palavras cuspidas não evaporam

Por Kleidianne Nogueira

Sou bagagem e transporte. Levo e sou levada. Trago lembranças e sou arrastada por consequências. Planto, colho! Não há o que negar.

Tenho uma boca enorme, uma língua ardilosa, difícil de dominar. Tenho arrependimentos.

Mas palavras cuspidas não evaporam. Não somem. Palavras cuspidas enchem taças amargas na mesa de quem as ouviu. E nem sempre percebemos que estamos cuspindo.

Ladeiras

Por Kleidianne Nogueira

Ladeira I

Descendo a ladeira
Com a mão na cintura
Formando uma alça
Onde leva os livros
Na outra balança
Pulseiras que dançam
Fazendo barulho
Descendo a ladeira...


Ladeira II
Sobe ladeira Desce ladeira Sem companhia Seja noite ou dia Rampa ou ladeira Sobe faceira Sem eira, nem beira E sem companhia Um dia se cansa De tanta andança De tanta ladeira De viver sem eira De não ter companhia Não sentir alegria Em subir a ladeira E descer todo dia