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Mostrando postagens de Abril, 2017

A construção do eu mãe

Por Kleidianne Nogueira.


* Padecer longe do paraíso sugerido em verso antigo parece-me ser de fato a sina da maternidade. Mas como não amar os sorrisinhos de quem nos condenou?

*Então é verdade que você é uma parte da minha história, mas não a extensão dela. Inúmeros caminhos aguardam que você escolha trilhá-los. Sem mim. Que Deus te conserve decidida a me dar as costas e aceitar os desafios da vida com tanta ousadia quanto hoje. E que Ele me conceda graça suficiente para aceitar que você não é minha. - Pois hoje ela deu o primeiro passo firme na longa jornada da independência.

*Sou obrigada a concordar com tantos clichês sobre maternidade que perdi a conta. Sim, o amor de mãe é inexplicável, incomparável. E mesmo quando o meu sangue ferve ao descobrir alguma malcriação, ou quando choro de cansaço e desespero, ainda transbordo amor. Amor que não nasceu da noite pro dia, mas vem preenchendo todas as minhas noites e dias. Amor que me transforma, que transforma a minha concepção de mundo…

Trancas

Fez tudo como de costume. Abriu os cadeados um por um e, enquanto os colocava de volta trancados, jogou de qualquer jeito as sacolas sobre o sofá. A curiosidade, maior do que a vontade impaciente de aliviar a bexiga lotada, fez com que ligasse o celular ao carregador antes de seguir em direção ao banheiro. Numa cadeira seca e barulhenta, ficou sentada por um longo período bisbilhotando redes sociais de conhecidos e estranhos.
Lembrou-se, por fim, das sacolas e correu com as mãos na cabeça ao avistar a  terrível tragédia que ela mesma causou: na pressa por saciar seu vício não assumido em internet, deixou no sofá uma sacola com os pedaços de carne fresca que prepararia no dia seguinte.
- Eu sabia que a melhor opção era couro sintético, e não veludo! - balbuciou sozinha enquanto tentava remover aquela gosma nojenta que se espalhava no sofá recém-reformado. - Mas veludo é tão lindo... Deve haver uma forma de reverter essa burrice que cometi!
A tal forma, se havia, não chegou a ser conce…

Não existe fase melhor que a infância.

Não existe fase melhor que a infância.
Por Kleidianne Nogueira

Luiza foi trazida da escola mais cedo queimando de febre. Medico, agasalho, beijo e faço menção de sair do quarto pra concluir o almoço. Ela se dirige a mim como se eu estivesse cometendo um pecado imperdoável.
- Mamãe, rum! Tu não vai deitar comigo? 
Volto e a acaricio enquanto explico que, apesar de estar tocada pelo pedido, o almoço não se fará sozinho e nós precisamos comer.
Dias depois sou eu que estou ardendo em febre numa rede. Sozinha com duas crianças, choro de dor e preocupação, adivinhem, com o almoço.
Luiza me cobre com um lençol e diz carinhosa:
- Vou deitar com você pra você ficar boa, viu?!
Viu.
À noite tenho uma piora e com ela sempre do meu lado ensaio um drama:
- Lulu, eu tô muito mal. Chama a Doutora Brinquedos.
- Mamãe, a Doutora Brinquedos é só um desenho.
Viu?
Criança é esperta o suficiente para acreditar que é a mamãe deitada do lado que vai curar o dodói, mas que a doutora do desenho é só um desenho.
Não existe m…