sexta-feira, 28 de abril de 2017

A construção do eu mãe

Por Kleidianne Nogueira.


* Padecer longe do paraíso sugerido em verso antigo parece-me ser de fato a sina da maternidade. Mas como não amar os sorrisinhos de quem nos condenou?

*Então é verdade que você é uma parte da minha história, mas não a extensão dela. Inúmeros caminhos aguardam que você escolha trilhá-los. Sem mim. Que Deus te conserve decidida a me dar as costas e aceitar os desafios da vida com tanta ousadia quanto hoje. E que Ele me conceda graça suficiente para aceitar que você não é minha. - Pois hoje ela deu o primeiro passo firme na longa jornada da independência.

*Sou obrigada a concordar com tantos clichês sobre maternidade que perdi a conta. Sim, o amor de mãe é inexplicável, incomparável. E mesmo quando o meu sangue ferve ao descobrir alguma malcriação, ou quando choro de cansaço e desespero, ainda transbordo amor. Amor que não nasceu da noite pro dia, mas vem preenchendo todas as minhas noites e dias. Amor que me transforma, que transforma a minha concepção de mundo. Amor que eu quero sentir pra sempre. Eu que sou tão volúvel, fui achada pelo desejo de alcançar algo eterno.

*Quando, deitadas, ela envolve meu pescoço com seu pequeno braço e sinto sua respiração quente em minha face, é como se as guerras tivessem cessado dentro e fora de mim. Encontro abrigo no acalanto de uma criança que não sabe a influência que exercem​ suas mãozinhas dançando em meus cabelos. Mais uma vez aceito que não poderia ocupar-me de outra tarefa que não a vigília de seus primeiros passos. O que há lá fora a ser por mim conquistado que seja mais valioso do que estar dentro deste abraço? A quais desejos mais nobres satisfaria que os dela? Que eu seja absolvida da culpa de não ser seduzida pela independência de minhas irmãs e que eu continue cabendo nesse acalanto até que seja a hora de trocar a vigília pelo impulso de seus voos.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

A dama dos cadeados - Parte 1



Por Kleidianne Nogueira

Fez tudo como de costume. Abriu os cadeados um por um e, enquanto os colocava de volta trancados, jogou de qualquer jeito as sacolas sobre o sofá. A curiosidade, maior do que a vontade impaciente de aliviar a bexiga lotada, fez com que ligasse o celular ao carregador antes de seguir em direção ao banheiro. Numa cadeira seca e barulhenta, ficou sentada por um longo período bisbilhotando redes sociais de conhecidos e estranhos.

  Lembrou-se, por fim, das sacolas e correu com as mãos na cabeça ao avistar a  terrível tragédia que ela mesma causou. Na pressa por saciar seu vício não assumido em internet, deixou no sofá uma sacola com os pedaços de carne fresca que prepararia no dia seguinte.

- Eu sabia que a melhor opção era couro sintético, e não veludo! - balbuciou sozinha enquanto tentava remover aquela gosma nojenta que se espalhava no sofá recém-reformado. - Mas veludo é tão lindo... Deve haver uma forma de reverter essa burrice que cometi!

  A tal forma, se havia, não chegou a ser concebida pela atrapalhada professora. Leves batidas na porta em um ritmo conhecido a fizeram correr para abri-la. Lá estavam novamente os cadeados.

- Que hora mais inoportuna para se ter tantos cadeados trancados. Se bem o conheço, tecerá comentários sobre a extrema segurança da casa. – Possuía esse hábito de resmungar sozinha. Ou até mesmo de ralhar com os móveis e os pobres cadeados que ela mesma comprou.

- Se pusesse mais uns desses, poderia entrar para o Guinness. Ficaria feliz em noticiar seu feito no nosso site. – A voz dele brincava, cumprindo sua previsão.

- Não exagere! Você sabe como é perigoso para uma mulher viver sozinha nesta cidade. Cautela nunca é demais! – E seguiu para o sofá cobrindo as evidências do crime cometido.

- Ora, veja! Menos de um mês e o sofá já tem marcas profundas da convivência entre vocês. Imagino como estará daqui a um ano. Precisa cuidar melhor de seus relacionamentos...

  Corada, ela retrucou.

- Se veio apenas para fazer críticas ao meu modo de vida, ainda não devolvi os cadeados a seus lugares. A porta lhe serve?

- Desculpe. Prometo ser mais gentil com as palavras.

  Uma cadeira afastada serviu de refúgio ao corpo cansado do jornalista. A professora, parecia desconfortável dentro da própria casa.

- Não deveria estar na redação? Ou com um computador ligado? 

- Posso dizer com toda convicção, que o site seguirá tranquilamente sem minha supervisão. Respondeu sem esboçar qualquer movimento.

- Então as ameaças de demissão eram verdadeiras?

- Não quero falar sobre isso.

  E após um breve silêncio ele decidiu sobre o que gostaria de falar.

- Já viu a nova livraria que abriu no bairro? Parece que fica aberta até tarde. Vem comigo?

- Se puder esperar um banho...

- Espero. Mas insisto que você deveria se cuidar melhor. Você pensa que dará certo esse tal namoro virtual. Mas deixe só o indivíduo saber como você se comporta quando chega em casa. Depois que você chegou da escola, já correu tempo suficiente para tomar um banho e até preparar um jantar decente para um amigo cansado, faminto...

  As paredes da sala ouviam suas palavras. Ela foi ao banheiro refletindo sobre o rabugento que adotou como amigo.

- Deve haver alguma forma de reverter essa burrice que cometi! – E sorriu faceira. – Deve sim!

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Não existe fase melhor que a infância.


Não existe fase melhor que a infância.
Por Kleidianne Nogueira

Luiza foi trazida da escola mais cedo queimando de febre. Medico, agasalho, beijo e faço menção de sair do quarto pra concluir o almoço. Ela se dirige a mim como se eu estivesse cometendo um pecado imperdoável.
- Mamãe, rum! Tu não vai deitar comigo? 
Volto e a acaricio enquanto explico que, apesar de estar tocada pelo pedido, o almoço não se fará sozinho e nós precisamos comer.
Dias depois sou eu que estou ardendo em febre numa rede. Sozinha com duas crianças, choro de dor e preocupação, adivinhem, com o almoço.
Luiza me cobre com um lençol e diz carinhosa:
- Vou deitar com você pra você ficar boa, viu?!
Viu.
À noite tenho uma piora e com ela sempre do meu lado ensaio um drama:
- Lulu, eu tô muito mal. Chama a Doutora Brinquedos.
- Mamãe, a Doutora Brinquedos é só um desenho.
Viu?
Criança é esperta o suficiente para acreditar que é a mamãe deitada do lado que vai curar o dodói, mas que a doutora do desenho é só um desenho.
Não existe mesmo fase melhor que a infância.

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