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A dama dos cadeados - Parte 1



Por Kleidianne Nogueira

Fez tudo como de costume. Abriu os cadeados um por um e, enquanto os colocava de volta trancados, jogou de qualquer jeito as sacolas sobre o sofá. A curiosidade, maior do que a vontade impaciente de aliviar a bexiga lotada, fez com que ligasse o celular ao carregador antes de seguir em direção ao banheiro. Numa cadeira seca e barulhenta, ficou sentada por um longo período bisbilhotando redes sociais de conhecidos e estranhos.

  Lembrou-se, por fim, das sacolas e correu com as mãos na cabeça ao avistar a  terrível tragédia que ela mesma causou. Na pressa por saciar seu vício não assumido em internet, deixou no sofá uma sacola com os pedaços de carne fresca que prepararia no dia seguinte.

- Eu sabia que a melhor opção era couro sintético, e não veludo! - balbuciou sozinha enquanto tentava remover aquela gosma nojenta que se espalhava no sofá recém-reformado. - Mas veludo é tão lindo... Deve haver uma forma de reverter essa burrice que cometi!

  A tal forma, se havia, não chegou a ser concebida pela atrapalhada professora. Leves batidas na porta em um ritmo conhecido a fizeram correr para abri-la. Lá estavam novamente os cadeados.

- Que hora mais inoportuna para se ter tantos cadeados trancados. Se bem o conheço, tecerá comentários sobre a extrema segurança da casa. – Possuía esse hábito de resmungar sozinha. Ou até mesmo de ralhar com os móveis e os pobres cadeados que ela mesma comprou.

- Se pusesse mais uns desses, poderia entrar para o Guinness. Ficaria feliz em noticiar seu feito no nosso site. – A voz dele brincava, cumprindo sua previsão.

- Não exagere! Você sabe como é perigoso para uma mulher viver sozinha nesta cidade. Cautela nunca é demais! – E seguiu para o sofá cobrindo as evidências do crime cometido.

- Ora, veja! Menos de um mês e o sofá já tem marcas profundas da convivência entre vocês. Imagino como estará daqui a um ano. Precisa cuidar melhor de seus relacionamentos...

  Corada, ela retrucou.

- Se veio apenas para fazer críticas ao meu modo de vida, ainda não devolvi os cadeados a seus lugares. A porta lhe serve?

- Desculpe. Prometo ser mais gentil com as palavras.

  Uma cadeira afastada serviu de refúgio ao corpo cansado do jornalista. A professora, parecia desconfortável dentro da própria casa.

- Não deveria estar na redação? Ou com um computador ligado? 

- Posso dizer com toda convicção, que o site seguirá tranquilamente sem minha supervisão. Respondeu sem esboçar qualquer movimento.

- Então as ameaças de demissão eram verdadeiras?

- Não quero falar sobre isso.

  E após um breve silêncio ele decidiu sobre o que gostaria de falar.

- Já viu a nova livraria que abriu no bairro? Parece que fica aberta até tarde. Vem comigo?

- Se puder esperar um banho...

- Espero. Mas insisto que você deveria se cuidar melhor. Você pensa que dará certo esse tal namoro virtual. Mas deixe só o indivíduo saber como você se comporta quando chega em casa. Depois que você chegou da escola, já correu tempo suficiente para tomar um banho e até preparar um jantar decente para um amigo cansado, faminto...

  As paredes da sala ouviam suas palavras. Ela foi ao banheiro refletindo sobre o rabugento que adotou como amigo.

- Deve haver alguma forma de reverter essa burrice que cometi! – E sorriu faceira. – Deve sim!

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E tudo o que posso é te agradecer.
Te agradecer.