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Trancas



Fez tudo como de costume. Abriu os cadeados um por um e, enquanto os colocava de volta trancados, jogou de qualquer jeito as sacolas sobre o sofá. A curiosidade, maior do que a vontade impaciente de aliviar a bexiga lotada, fez com que ligasse o celular ao carregador antes de seguir em direção ao banheiro. Numa cadeira seca e barulhenta, ficou sentada por um longo período bisbilhotando redes sociais de conhecidos e estranhos.

Lembrou-se, por fim, das sacolas e correu com as mãos na cabeça ao avistar a  terrível tragédia que ela mesma causou: na pressa por saciar seu vício não assumido em internet, deixou no sofá uma sacola com os pedaços de carne fresca que prepararia no dia seguinte.

- Eu sabia que a melhor opção era couro sintético, e não veludo! - balbuciou sozinha enquanto tentava remover aquela gosma nojenta que se espalhava no sofá recém-reformado. - Mas veludo é tão lindo... Deve haver uma forma de reverter essa burrice que cometi!

A tal forma, se havia, não chegou a ser concebida pela atrapalhada professora. Leves batidas em sua porta, em um ritmo conhecido, a fizeram correr para abri-la. Lá estavam novamente os cadeados.

- Que hora mais inoportuna para se ter tantos cadeados trancados. Se bem o conheço, tecerá comentários sobre a extrema segurança da casa. – Possuía esse hábito de resmungar sozinha. Ou até mesmo de ralhar com os móveis e os pobres cadeados que ela mesma comprou.

- Se pusesse mais uns desses, poderia entrar para o Guinness. Ficaria feliz em noticiar seu feito no nosso site. – A voz dele brincava, cumprindo sua previsão.

- Não exagere! Você sabe como é perigoso para uma jovem viver sozinha nesta cidade. Cautela nunca é demais! – E seguiu para o sofá cobrindo as evidências do crime cometido.

- Ora, veja! Menos de um mês e o sofá já tem marcas profundas da convivência entre vocês. Imagino como estará daqui a um ano. Precisa cuidar melhor de seus relacionamentos...

Corada, ela retrucou.

- Se veio apenas para fazer críticas ao meu modo de vida, ainda não devolvi os cadeados a seus lugares. A porta lhe serve?

- Desculpe. Prometo ser mais gentil com as palavras.

Uma poltrona afastada serviu de refúgio ao corpo cansado do jornalista. A professora, parecia desconfortável dentro da própria casa.

- Não deveria estar ainda na redação? Ou com um computador ligado? 

- Posso dizer com toda convicção, que o site seguirá tranquilamente sem minha supervisão. E não somente hoje. – Respondeu sem esboçar qualquer movimento.

- Então as ameaças de demissão eram verdadeiras?

- Não quero falar sobre isso.

E após um breve silêncio ele decidiu sobre o que gostaria de falar.

- Já viu a nova livraria que abriu no bairro? Parece que fica aberta até tarde. Vem comigo?

- Se puder esperar um banho...

- Espero. Mas insisto que você deveria se cuidar melhor. Você pensa que dará certo esse tal namoro virtual. Mas deixe só o indivíduo saber como você se comporta quando chega em casa. Depois que você chegou da escola, já correu tempo suficiente para tomar um banho e até preparar um jantar decente para um amigo cansado, faminto...

As paredes da sala ouviam suas palavras. Ela foi ao banheiro refletindo sobre o rabugento que adotou como amigo.

- Deve haver uma forma de reverter essa burrice que cometi! – E sorriu faceira. – Deve sim!

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