segunda-feira, 4 de setembro de 2017

A mãe que se perdeu

Fonte: Pexels

Por Kleidianne Nogueira

Mais uma noite de explosões mentais. Mais uma noite de insônia à vista. O mundo particular de Ana foi invadido por civis inocentes que ela não podia combater.

  Pá! Ela imagina a porta batendo e a guerra cessando. Não bate. São civis inocentes. Sai sem rumo. Senta num banco qualquer e lê sobre um tal psicanalista criador do termo "crise de identidade". Não lê muito. Em pouco tempo os olhos apenas deslizam sobre as palavras mas elas não fazem o menor sentido.

  A brisa vem refrescante como há muito tempo não sentia. Não traz a calma, mas traz de volta uma parte da consciência. Então se dá conta de como tudo pulsa e dói. A nuca, o pescoço, o estômago, as veias das pernas, a sola do pé. Pulsa e dói.

  Enquanto toma consciência da própria situação, os olhos permanecem fixos nas palavras. A brisa agora perturba suas narinas com um perfume que a avisa sobre a chegada de alguém. Ela nem sabe dizer se gosta do perfume, mas não gosta da ideia de ter companhia agora.

- Boa noite.

- Boa noite. Ana responde automaticamente e se surpreende ao olhar para a figura que vem mancando à sua frente - quer ajuda?

- Quero sim. Uns minutinhos sentado nesse banco se não for atrapalhar.

  Ela quis dizer que estava de saída. Quis avistar já a bandeira branca em sua guerra interior. Mas estava eufórica demais para formular a resposta certa e correr para casa.

- Acabei de colocar o gesso. Ainda não me acostumei.

- Tudo bem. Pode sentar. E retornou ao teatro da leitura.
- Estudando a essa hora?

- Só lendo um pouco pra distrair.

- Erik Erikson?

Os dois sorriram. Pá! Uma porta bateu lá dentro.

- Esse aqui nem é autoria dele. Super chato.

- É chato mesmo!! - e se ouvem gargalhadas - tentei ler dia desses, mas a tia que escreveu é mais chata que meu nariz.

Páh! Mais uma porta fechada.

- E esse gesso?

- Ah! O que é? O que é? O meio de transporte que mais provoca fraturas nesse país?

- Moto!

- Exatamente. Coloquei o gesso ontem. Tive sorte de não precisar de cirurgia. Nãodeveria andar tanto, mas não estava conseguindo dormir. Tava de bobeira ali na porta e vi você chegar. Parecia nervosa.
- Um pouco.

- Acho que seu pouco nervosismo tem crise de identidade. Porque ele parecia bem muito.

- Obrigada por se importar, mas nada a ver falar sobre isso.

- Tudo bem, eu entendo...

- ...

- Eu vou te dar um abraço.

- Que? Ana tentou se levantar, mas seu movimento apenas facilitou o escorregão dos braços do estranho pelas suas costas.

- Você é louco?

- Você é?

- Talvez. Louca por aceitar o abraço de um estranho.

- Muito louca.

- Muito louca.

Pá!, Pá!, Pá!... Uma fila de portas batendo em sequência e Ana sentiu a calma chegar. A mente voltando ao sereno mar da sanidade. Sentiu uma conexão que já havia sentido antes.

- Você não é um estranho, é?

- Não, Ana. 

- Você não leu Erik Erikson...

- Não. Mas precisava encontrar algo do seu interesse pra entrar no seu mundo sem causar mais uma guerra.

  Ana finalmente retribuiu o abraço. Parecia até que a brisa vinha mais forte, mais fria. E ela sentiu um arrepio bom na espinha que a fez viajar nas lembranças.

- Bento! Meu irmão, Bento! O melhor abraço do mundo é do Bento.

- Bem vinda, de volta, Ana! - disse Bento exultante por mais uma vez ter conseguido resgatar a irmã das viagens na própria mente.

- Não me solta, por favor!

- Nunca, Ana! A gente precisa voltar pra casa. Aqui não é seguro à noite.

- Por que foi que eu saí?

- Seus filhos. Não queriam dormir e você estava cansada.

- Eu machuquei eles?

- Não. Pelo menos não fisicamente. Mas a mãe já está lá com eles. Vem comigo. Vai ficar tudo bem.

  Não sabia dizer ao certo quando as guerras começaram. Pra falar a verdade elas sempre estiveram em sua mente. Era difícil lidar com as pessoas, com a vida ordinária, consigo mesma. Sempre que algo fugia do seu controle as explosões mentais começavam a lhe perturbar. Ela se imaginava passando por portas e vendo-as se fecharem atrás de si até que a guerra ficasse distante e silenciosa. Mas às vezes as portas não fechavam. Ela passava por elas e continuava ouvindo o barulho estridente das bombas. Nada parecia real. Nessas horas, a única pessoa capaz de resgatá-la era o irmão caçula, que sempre encontrava um caminho para a mente confusa de Ana e fazia a guerra cessar com um abraço.

  Já os lapsos de memória eram novidade. Começaram há cerca de um ano, quando perdeu o marido num acidente trágico de avião. Ela estava grávida do terceiro filho, Armando, a quem deu o nome do pai. O marido era um homem singular, que entendia suas guerras tanto quanto Bento. Às vésperas do parto da esposa, o deputado a quem assessorava levou-o a uma última viagem de trabalho antes de conceder a licença para receber o filho. Quando retornavam, o acidente aconteceu e não deixou sobreviventes.

  Ana viu a notícia pela TV e ficou em estado de choque. Sequer percebeu que a bolsa havia rompido e ficou estática, enquanto as outras filhas correram para avisar a avó. Depois disso ela não se lembra de mais nada. Acordou algumas vezes na maternidade, mas não tinha certeza se estava mesmo viva ou visitando uma outra dimensão.

  Desde então ela se culpava. Por não ter sido o porto seguro das filhas ao perderem o pai. Por ter rejeitado o caçula e ter levado meses para aceitá-lo em seu colo. Por ter feito toda a família desprender tantos esforços para cuidar dela e dos filhos enquanto ela viajava incapaz na própria mente. Havia mais culpa em seu interior agora do que um dia houve amor pelo marido falecido.

  Quando recuperou alguma sanidade, dedicou-se ao estudo da mente. Embarcou numa busca incansável de subterfúgios que a livrassem daquelas guerras. Queria ser uma mãe melhor. Uma que não abandonasse os filhos quando estes mais precisavam. Queria deixar de ser a coitadinha frágil que vivia sob constante vigilância. O que ela não percebia é que estava fazendo justamente o contrário e inundando a mente de informações que ela não conseguia absorver.

- Bento, obrigada.

- Por nada. Entra logo. Você precisa dormir.

  Ana obedeceu. Entrou e jogou o livro sobre identidade na lata do lixo da cozinha. Bebeu um copo de suco e foi para o quarto que dividia com os filhos. Agradeceu a mãe e pediu para ficar sozinha com as crianças. Embora dormissem, desculpou-se com os três e fez algumas promessas que ela sabia impossíveis de cumprir. Mas ela queria acreditar que um dia suas guerras teriam fim.

  Depois que toda a casa dormia, beijou cada um dos filhos em silêncio e afastou-se antes que mudasse de ideia. Estava decidida a fechar uma última porta. Não a que traz a paz, mas uma que lhe traria a maior de todas as guerras. Esgueirou-se na escuridão, abriu devagarinho a porta da frente e desapareceu sem deixar rastros.

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